terça-feira, 26 de junho de 2007

Tentativa de barganha com Deus

A imprensa noticiou nos últimos dias que os fundadores da Igreja Renascer em Cristo, o apóstolo Estevam Hernandes e sua esposa, Sonia Hernandes, fizeram um acordo com a Justiça norte-americana.
O problema começou no dia 9 de janeiro, quando os religiosos brasileiros foram detidos por agentes da FBI no aeroporto de Miami. E o motivo da prisão é que o casal tentou entrar nos Estados Unidos com US$ 56 mil não declarados, além de mais R$ 120 mil em dinheiro vivo.
Como notícias que articulam escândalo e religião sempre são de grande interesse, o episódio chamou a atenção da opinião pública. Mas para compreender melhor esse fato é preciso lembrar que ele está inserido em um contexto maior, de caráter teológico, pois a Renascer é uma das instituições religiosas brasileiras que fundamenta seu discurso e sua prática nas propostas da Teologia da Prosperidade.
Os estudiosos da Teologia da Prosperidade apontam seu surgimento nos Estados Unidos, nas décadas de 50 e 60 do século passado. De acordo com o professor Leonildo Silveira Campos, trata-se de um conjunto de crenças "que afirma ser legítimo ao crente buscar resultados, ter fortuna favorável, enriquecer, obter o favorecimento divino para a sua vida material ou simplesmente progredir". Paul Freston, por outro lado, afirma que nessa proposta teológica "o princípio básico da prosperidade é a doação financeira, entendida não como um ato de gratidão ou devolução a Deus (como na teologia tradicional), mas como um investimento. Devemos dar a Deus para que ele nos devolva com lucro".
Nesse sentido, um olhar mais atento sobre as propostas da Teologia da Prosperidade pode levantar algumas preocupações. A primeira é que o discurso de prometer a felicidade terrena encontra um solo fértil em um país em que há um grande nível de exclusão social, o que possibilita a manipulação de mentes e de corações em nome da fé. A segunda é que com isso a religião assume a lógica do consumo e do mercado, para quem a dignidade do ser humano depende daquilo que ele tem, e não daquilo que ele é. Isso leva à idéia de que ter mais dinheiro significa ser mais amado por Deus, o que está na contramão da proposta e da prática de Jesus. Uma terceira preocupação é que na onda da Teologia da Prosperidade a própria religião se transforma em apenas mais um item da cultura do consumo. Um quarto problema é que a Teologia da Prosperidade leva a uma fé individualista e egoísta, em que a felicidade pessoal é absolutizada e o bem da coletividade fica em segundo plano.
A lógica da Teologia da Prosperidade, portanto, fundamenta-se nas promessas de sucesso material e financeiro para quem é fiel a Deus. Como conseqüência, o nível de sucesso depende do valor da contribuição financeira. Assim, seu discurso apresenta uma proposta de troca, de barganha entre o fiel e Deus. Mas como Deus não vem pessoalmente receber as doações, elas devem ser entregues àqueles que se colocam como representantes do divino.
Diante das preocupações levantadas, fica aos cristãos a tarefa de substituir a Teologia da Prosperidade por uma Teologia da Gratuidade. Vale a pena, então, refletir sobre um fato atribuído à Madre Teresa de Calcutá. Conta-se que um homem a viu cuidando das feridas de um doente e, com a intenção de ser simpático, afirmou que não teria coragem de fazer o mesmo nem que fosse para ganhar um milhão de dólares. Diante disso, a afirmação da Madre Teresa foi a seguinte: "Por um milhão de dólares eu também não faria. Faço por amor".
Sim, só pela gratuidade do amor vale a pena amar a Deus e consumir a vida por Ele. Só por amor faz sentido entregar-se a Deus com generosidade e confiança, sem ficar fazendo contas de ganhos e perdas com mentalidade bancária e financeira. E só por amor é possível abraçar o seguimento a Jesus Cristo de maneira completa, com suas conseqüências e desafios. E entre os desafios está a tarefa de preocupar-se não apenas com a felicidade individual, mas comprometer-se com a transformação da sociedade para que "todos tenham vida, e a tenham em plenitude" (Jo 10,10).

Autor: Lindolfo Alexandre de Souza

1 comentários:

Brinas disse...

Show de bola o teu blog, Marrom. Não conhecia. Agora vou virar leitor...
Abração!